A Ninfomania de Lars von Trier

Desde  o pensador católico Søren Kierkegaard (ou, vá lá, Hamlet…) não consigo pensar em outro dinamarquês tão sofisticado, no caso do primeiro, e tão divertido no caso do segundo. Lars von Trier existe para dar cinza ao monte de cores opacas que pintam e embaçam a paisagem do mundo artístico e porque não dizer do ordinário, esse que a gente consome todo dia.

Sua nova fita, Ninfomaníaca Vol. 1, é prova vivaz dessa intempérie. Fala-se muito das cenas de sexo explícito do filme mas esse detalhe é o que menos interessa, porque gasto, trivial, inodoro, feito sem tesão, um monumento à banalidade que o diretor usou de propósito no intuito de habilmente desviar o foco dos menos argutos.

O filme começa à la Luchino Visconti, entremeado por silêncio e água, dois elementos essenciais à reflexão. Logo o silêncio é interrompido por um brutal heavy metal e um corpo  caído no chão. Abrem-se as cortinas.

O corpo pertence a Joe, aparentemente problemática moça que, achada por um homem em meio à rua, encontra no desconhecido sua voz interior e até exterior.

Joe está machucada e dissimuladamente frágil, recusa socorro, quer aconchego e ouvido. Achou-os ambos na figura de um personagem sem nome, culto, misterioso e sábio. Ouve com protocolar atenção à narrativa de Joe que a levou até àquela aparente penúria; o desentendimento com a mãe, o amor algo de síndrome de Elektra (ver Freud) com o pai, a rejeição enfim de sua anormalidade perante um mundo normal demais para ela.

Diante dessa fortaleza existencial Joe não faz mais do que abusar do sexo para preencher uma lacuna que não existe; então passa a trepar alucinadamente com gregos e troianos, cretenses e atenienses esperam à fila, enquanto ela os usa e os descarta sem cerimônia ou tédio.

O momento em que ela vê o pai entregue à morte e se excita a ponto de verter o produto da excitação entre as pernas estonteia menos pela simbologia do que pelo realismo, vez que nas grandes crises emocionais a excitação e o orgasmo se aglutinam e concorrem para explodir e dar vazão à agonia, por mais absurdo que parece ser, mas a vida é absurda.

Na melhor cena do filme quando um dos seus amantes se separa da esposa para ficar com Joe e chega à casa de Joe seguido pela esposa com os três filhos à casa da amante para mostrar as crianças a miséria que será o divórcio e a dor da traição: é um dos momentos mais grandiosos da história do cinema. Os três filhos, Joe, o amante e mais um parceiro sexual que Joe esperava, ouvem com solene silêncio o desabafo da esposa traída. Dura mais de 5 minutos a fala solitária da mulher. É um solilóquio intenso, cínico, cruel e surrealista, que me levou a ver em vez de uma cena de filme, uma tela de Dalí. Ou um dos devaneios de Van Gogh, a quem Lars é tributário.

Não obstante o que mais me decepcionou foi perceber que a ninfomaníaca não seja uma mulher, mas um homem, perfeito, belo e com uma vagina inquieta. Joe raciocina como homem, tem a cabeça mecânica e espacial que é próprio da natureza masculina; ela/ele consegue ligar a moto que não liga de jeito nenhum do cara que acabara de a desvirginar com o entusiasmo de um funcionário público mal remunerado; ela estaciona o carro numa vaga onde só cabe o carro, e até quando é deflorada pela primeira vez confecciona sem saber as sequências do Teorema de Fibonacci, pelas estocadas que o homem enseja quando a penetra pela frente (3) e por detrás (2); se isso não for uma cabeça masculina…

Claro que para o público comum Lars von Trier é um oceano quando somos gota. As referências cinematográficas, filosóficas (Epicuro) “quando estamos vivos a morte não existe e quando morremos, nós não existimos”, pictória, acho que no fim do filme aparece uma tela de Rafael, uma madona imaculada, contraponto exato à sua devassa degenerada, à música equacional de Bach, polifonia, trítons, um desfile completo do que a alta cultura produziu da Idade Média até aqui e claro que não saímos ilesos a isso, pois do mesmo modo como ela ignorou mas absorveu o teorema enquanto tinha o hímen cordialmente rompido, saímos do cinema com a sensação de que algo nos tocou por meio de uma osmose misteriosa, que contagia e cega.

O cromatismo em Lars von Trier é outro mistério que intriga pela dissonância; lá pelo meio da filme, tudo é filmado em preto e branco, o que seria esse artifício? Mostrar que a dualidade entre e cor e descor, luz e sombra é a uma perfeita metáfora da finitude das coisas? Pode ser; como também não pode ser nada, o que seria ainda mais genial.

Outro dado significativo neste novo trabalho do dinamarquês é seu desassossego em querer romper com a caretice atual e especialmente a de Hollywood. Mostrar uma espécie de pornô “soft” num filme de “arte” (tenho horror ao epíteto), é o último estágio para a libertação não sexual do cinema e das artes em geral, mas de uma certa estética sonolenta e capenga que está presente em toda parte, daí a necessidade de um artista sensível e corajoso como Lars para nos arrancar dessa anemia.

Não duvido que tempo virá em que uma Julia Roberts qualquer deixará um pênis intumescido sobrepor-se e vagar entre suas coxas sem que tenha de cobrar um cachê maior por esse “plus”. Será a última fronteira que abrirá, quem sabe, a cabeça oca por fora das pessoas que comandam esse mundo cinza e débil.

Logo no início da fita, quando Joe diz que “espera mais do por-do-sol” é um sintoma didático e profundo cuja gênese não pude alcançar. É uma pista importante, mas o autor não quer deixar rastros para serem seguidos; receio que ele intenta que sejamos mais atrevidos até no ato banal de apertar o botão de um elevador, porque não com o cotovelo?, eis a grande missão dos grandes artistas.

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