Vende-se Macaxeira nos Jardins

Quando eu morava em Jaboatão, na grande Recife, no glorioso bairro do Cajueiro Seco, periferia profunda da cidade, tinha um homem que vendia macaxeira, o aipim, a mandioca, num carrinho de mão; eram ambos esfarrapados, homem e carrinho; ele desfalcado pelas rugas, o outro pela ferrugem, essa espécie de ruga que atinge metais.

Ele passava todas as segundas-feiras, dia estranho a julgar que a feira era feita tradicionalmente aos sábados, queria dizer-lhe que seria mais produtivo que aparecesse as quintas, tempo em que o estoque em regra poderia estar escasso, mas o homem era de uma fé!

Hoje saindo de casa, não é que vejo um herdeiro daquele longínquo homem em plena Rua Estados Unidos, esquina com a Alameda Joaquim Eugenio de Lima? Foi menos uma realidade do que uma miragem. O mesmo espécime dotado de braços e pernas – e do carrinho de mão, solene diante do tráfego e da indiferença empurrando sua mercadoria pelas ruas dos Jardins… pelos filhos devorados de Saturno!

O meu homem original de Pernambuco tinha uma balança cujo funcionamento me fascinava, era um arame atado a um gancho, um prato, dois pesos; esse não sei que apetrecho usava, talvez um artefato digital, um IPad, uma Ibalança, mas receio que não.

A incoerência da cena, a impertinência do herdeiro ancestral vendendo aquele tubérculo em pleno Século XXI me deixou além de suspenso, recheado de dúvidas. Como poderia se dar aquilo? Alguma madame dar-se-ia ao luxo de descer do seu luxo ao avistar na janela o comerciante com seu indefectível carrinho chegando? Ou teria o mascate a clientela já formada, o endereço e o nome anotados na caderneta?

Difícil supor. Porteiros e zeladores em geral são hostis a vendedores e símiles em seus prédios. O pequeno-reino deles é inviolável, exceto por gente que tenha como cartão de visitas uma pistola sete meia cinco.

Segui o rumo em direção à chusma de papéis em repouso na minha mesa, mas com o vendedor de macaxeira inserido em meus sentidos. Elemerecia uma entrevista no Fantástico. A Patricia Poeta comovida haveria de lhe interrogar os motivos, os meios, o porquê de vender a raiz num bairro tão hostil a míseros de qualquer demanda.

Não obstante, percebi no garoto certa e correta empáfia que me fez lembrar uma peroração de Nelson Rodrigues (pernambucano e quiçá parente distante do vendedor recifense):

o nordestino que fica na beira da estrada pedindo esmola, a faxineira, os desafortunados em geral, todos esses, tem de ser altivos, arrogantes. A humildade que fique com os Napoleões, com os Papas, com os reis”

É isso aí, centenário conterrâneo.

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