A Vocação de Mateus – Caravaggio

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O drama foi a vocação suprema da vida e obra de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610); sem o drama ser-lhe-ia impossível impingir à sua arte o caráter trágico dos absurdos da vida.
Esta tela magnífica, hoje repousada na Igreja dos Franceses em Roma, relata a passagem mais do que em passant do episódio da conversão de Mateus. – Mateus 9:9. 
A narrativa mescla o tenso e o trivial, o grave e o fortuito. Mateus, jovem cobrador de impostos, é escolhido “ao léu pelo” Cristo que lhe aponta o dedo e o chama para ser seu ministro. Repare na incredulidade do companheiro de Mateus, o de hirta barba, a querer confirmar se era mesmo a Mateus que o Cristo chamava; os olhos fixos e expressivos revelam uma surpresa instintiva do homem que deveria pertencer à classe política de Cafarnaum, uma vez que era também cobrador. O menino por outro lado, expõe na face um ar mais contemplativo do que surpreso, parece querer apreciar o invasor do recinto que mais lembra uma taberna, lugar favorito de Caravaggio, e não uma repartição pública, como seria de supor.
Outras personagens desdenham da presença de Jesus, ora ignorando-o, ora presos na apreciação da féria do dia. 
A dramaticidade com que a luz invade a paisagem no plano superior dá a ênfase que o artista queria; evocar que a luz provém mesmo dos céus e aquele portador (Jesus) é o provedor dela.
Amalgamado à escuridão, a face de Jesus ondula entre a penumbra e o mistério, o que o faz parecer muito mais um espectro do que uma pessoa, possível resultado do espanto de quem o vê do ângulo oposto que é exatamente igual ao da perspectiva.  
Um Mateus concentrado na sua tarefa, alheio às profusões da cena, parece que vai erguer a cabeça a qualquer momento, extinguindo sua compenetração. O arrebatador e sereno Cristo não se entrega a nenhuma emoção; fixa o olhar no seu alvo e ignora as reações, muito embora a narrativa deixe claro que a última ação a seguir seja o  olhar teatral de Mateus antes de seguir seu destino.
Outra peculiaridade deste quadro é que o poeta retrata, à exceção do Ungido, homens de seu tempo, vestidos à maneira do século XVI, fato que não volta a ocorrer; ele retrata Baco vestido como grego, os Emaús, idem, o Sacrifício de Abrahão, Davi com Cabeça de Golias, A Deposição de Cristo, Conversão de Paulo, Crucificação de Pedro, A Madona de Loreto, etc, todos estão trajados à moda do tempo, não é impossível que ele quisesse com mais essa ousadia, criticar o governo daquela Florença, ávido como todos os governos pelo salgado dinheiro dos comuns.
Caravaggio é um artista sanguíneo, não sanguinário como quiseram lhe imputar seus detratores, a força arrasadora dos muitos sangues que escorrem ou estão prestes a escorrer de suas telas é a denúncia mais perfeita que um autor pode fazer contra a realidade.

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